CANTO DO BACURI > Mari Satake: Reencontro

Final de ensaio. As pessoas se descontraem juntando-se em pequenos grupos. Ao seu redor também se juntaram duas outras mulheres, também como ela, um pouco mais novas que as demais. Uma delas lhe pareceu familiar, mas não lhe ocorria quem pudesse ser. Teve a sensação que a outra também, de algum lugar a reconhecia. Não se detiveram em suas impressões e deixaram a conversa prosseguir, sem maiores comprometimentos. Só amenidades, até que do outro lado da mesa, ela ouve a mulher dizer o nome de sua cidade natal. Instantaneamente, reage e diz também ter nascido e vivido a infância na cidade. Acham engraçada a situação. Querem saber mais. Apresentam-se com o nome completo de infância. De início, vagas lembranças lhes ocorrem. Ela diz ter entrado na escola em tal ano, a outra confirma que também. Fala o nome da escola. A outra confirma. Dão risadas com as coincidências. A outra pergunta a ela, se a professora Zenaide havia sido a professora do primeiro ano do Grupo Escolar. Sim, foi. Espanto geral. Então foram coleguinhas de classe. Dali em diante, só lhes interessa lembrar e falar da distante infância.
No salão, aos poucos, os grupos vão se dispersando e saindo. A outra mulher que se sentara com elas, também se despede. O trabalho a espera.
Aparentemente, sem maiores compromissos que as chamem, as duas ficam ali conversando. De suas infâncias, passam aos conhecidos comuns de seus tempos, a outra cita alguém de quem ela se lembra. Pois é! Morreu! Morreu? Também ele? Lembra e fala de outro que morreu há pouco tempo atrás. Também jovem. Elas riem com a ironia. Sim. Jovens. Elas são as jovens iniciantes do grupo de idosos, daqueles que podem tirar a carteirinha do transporte público gratuito, das vagas mais fáceis dos estacionamentos, das vagas destinadas aos acima de 60 anos nas universidades públicas.
Neste momento, o rosto da outra se ilumina. Diz que desde que se aposentou e deixou de trabalhar fora, há alguns anos atrás, era doida para frequentar algumas das disciplinas oferecidas aos acima de 60 e não tinha idade suficiente. Mas todo inicio do semestre, verificava as disciplinas oferecidas e quando fez 60 anos, assim que teve direito, correu para se inscrever. Hoje, é uma feliz estudante. Estuda com prazer. E tem feito amizade com muitos jovens.
Admirada ela ouve e fala de suas insatisfações atuais. Acha que tem muitas horas que poderiam ser melhor utilizadas. Tem vontade de voltar a estudar algo que nunca estudou e quem sabe(?) voltar a trabalhar também, talvez. Secretamente, ela ri de si mesma. Seu velho vício de querer transformar todo conhecimento em trabalho a ser feito.
Animada, a outra lhe promete trazer o caderninho com as disciplinas oferecidas para o semestre que segue em curso, apenas para ela ter uma ideia.
Agora, o adiantado das horas as chama. Elas precisam tomar o rumo, a vida as chama para seus rotineiros compromissos. Despedem-se como velhas amigas e no próximo encontro que será daqui a um mês, novamente trocarão figurinhas sobre um possível retorno dela aos bancos escolares.

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