CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Yotsuya Kaidan e a criação fantasmagórica

Levado para o cinema em torno de trinta versões, a mais fiel ao original teria sido a de 1959, denominado Tôkaido Yotsuya Kaidan, produzido pela Shintoho, com a adaptação de Nobuo Nakagawa. Nesta, o diretor não deixa de fazer uma homenagem ao teatro Kabuki, do qual teria surgido a peça Tôkaido Yotsuya Kaidan, escrita por Tsuruya Nanboku IV, em 1825.
Para entender esta peça popular, tão apreciado pelas plateias formadas em grande parte por comerciantes, aventureiros, jogadores e comuns, retomemos ao período Edo. Foi quando se conheceu a paz duradoura e a unificação do país sob o shogunato do clã Tokugawa, de 1600 a 1867. Nesta época de consolidação nacional, uma rodovia foi inaugurada ligando a capital do Leste, Edo (atual Tóquio) a Kyoto, para oeste.
Num destes pontos da rodovia Tôkaido, teria acontecido o relato desta peça. Peça que se transformou em filme com o fomento da arte cinematográfica, da cultura de massa nas salas de exibição. De fato, Yotsuya Kaidan é um destes filmes de fantasmas que foi explorado pelo cinema japonês. Não apenas este, outros igualmente foram lançados neste mesmo período. Uma vez que um gênero obtinha sucesso, outros vinham preencher as telas das salas de exibição. Havia uma forma própria dos diretores japoneses realizarem os filmes, com a utilização de cenários montados em estúdios. Cenários que lembravam os palcos do teatro.
O fantasma de Yotsuya Kaidan vai influenciar outros, sendo este uma mulher de quimono branco, a pele igualmente branca com ligeira tonalidade azul, os cabelos desgrenhados e uma parte arrancada. Para completar, o semblante é de profunda tristeza. Trata-se da personagem Oiwa, a esposa de Iemon, que resolveu trocá-la por alguém mais jovem e de família influente. Oiwa é envenenada pelo marido, mas antes sofre com os efeitos que a levará à morte. Um dos olhos cego e enorme ferida num dos lados da fronte.
Várias tentativas de caracterização teriam ocorrido no cinema. Mas durante o período Edo havia uma arte da xilogravura Ukiyo-ê, vendida em reproduções coloridas nas hospedarias e restaurantes ao longo da Rodovia Tôkaido. Aconteceu nas reproduções de Ukiyo-ê de Shunkosai Hokushu que o fantasma de Oiwa podia ser comprado e exposto nas casas dos populares.
Este fantasma de Oiwa é do tipo onryô – aquele que busca vingança. Um sentimento de vingança a traz de volta a fim de reparar um erro cometido em vida: a ingenuidade. O mesmo ser ingênuo pode mostrar a sua face sombra, a da maldade justificada. O público pode torcer para que o fantasma faça justiça, alimentado pelo ódio, o próprio ódio a ser justificado. O mesmo fantasma de aspecto horrível mostra-se dócil diante do filho pequeno, não perdendo assim a sua natureza feminina de mãe. O próprio fantasma se torna herói, cuja aparição por si causa medo, mas antes disso uma repulsa. Existe uma mescla de coisa feia com nojo, um ser pegajoso como uma lesma ou um sapo.
Os filmes deste gênero, neste também, uma trilha sonora característica valoriza a aparição. Algo que faz tremer, causando uma sensação desagradável. É o toque de um violoncelo numa melodia arrepiante. A utilização deste recurso sonoro deixou uma marca importante neste tipo de filme. Possivelmente isso não aconteceria mais na atualidade.
Como a história se passa no período Edo, o samurai do tipo Iemon, o personagem principal ao lado de Oiwa, é um vagabundo que vive dando golpes e enganando as mulheres. É do tipo rônin em suas variantes literárias, protagonistas do kabuki e personagens do cinema. Afasta-se do herói como Miyamoto Musashi e. em sentido contrário, aproxima-se de uma condição mais próxima da ambiguidade da condição humana. Podem-se corromper se colocados em circunstâncias adversas.
Acontece durante o período Edo uma transformação social, quando a classe dos comerciantes se torna influente, enquanto conhece-se a decadência dos bushi, a classe guerreira. Pelo menos aqueles que ficaram desempregados após o fim das guerras. Pela Rodovia Tokâido uma infinidade de viajantes desloca-se, de toda espécie, de jogadores e prostitutas, espiões, poetas e monges. Neste universo de transição, a arte popular, baseada nos acontecimentos que caem na boca do povo, que modifica a cada conversa, surgem crônicas como Yotsuya Kaidan.
Em se tratando de cinema, o diretor Nobuo Nakagawa quis manter-se mais perto da origem desta história. Em diversos momentos, a cena inteira, como fosse um palco do Kabuki, é utilizada. A câmera posta debaixo para cima, buscando enquadrar os atores, mas de forma deformada na produção da imagem causa uma beleza inesperada.
Tão marcante teria sido a construção da imagem do fantasma em Tôkaido Yotsuya Kaidan, seja através do Ukiyo-ê, do teatro Kabuki, e do cinema de estúdio, que ninguém ficou imune a esta influência, parte agora de um imaginário popular dos japoneses. Não foi desta vez que Oiwa encerrou a sua carreira no cinema. Novas versões, adaptações e recriações são realizadas em torno deste fantasma. Acontece que esta história deu início a partir de um fato supostamente real. Existe o túmulo de Oiwa no cemitério do Templo Myogyoji, em Sugano, Tóquio. Ao se fazer um filme sobre ela, os atores vão até lá e prestam homenagens a fim de que nada de errado aconteça durante as filmagens.

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