CANTO DO BACURI > Francisco Handa: “Rifle de caça”no cinema de Gosho

Sada Keiji
Sada Keiji
Okada Mariko
Okada Mariko

Um dos diretores que contribuíram na difusão de filmografia japonesa foi Heinosuke Gosho. Entre as suas obras, um dos mais conhecidos foi Kiroi Karasu – Corvo Amarelo, de 1967, que no Brasil foi exibido em circuito comercial nas salas do grande público, aqui mesmo em São Paulo. Seus temas preferidos foram o drama familiar, tão comuns nos filmes de Mikio Naruse e Yasujiro Ozu, ciclo conhecido por Shoshimin-eiga. O filme, em questão, a ser comentado neste artigo é Ryoju, cujo título traduzido em línguas ocidentais e impresso em cartais de divulgação: Rifle de caça.
Nascido em 1902, Gosho ingressou no Estúdio Shochiku, em 1923, auxiliando diretores como Yasujiro Shimazu. Faleceu em 1981. Assim, fez parte da indústria dos filmes mudos, depois os sonoros e, finalmente, os coloridos. Ryoju é um filme colorido de 1961, portanto dezesseis anos depois do fim da guerra. O Japão vivia momentos de prosperidade, nada lembrando a miséria dos tempos difíceis de racionamento e reconstrução. Um estilo de vida também faz parte na maneira de enfrentar os dilemas do cotidiano.
O tema abordado por Gosho não possui a leveza do cotidiano como na poesia de Ozu. A inocência teria sido substituída por questões mais complexas da alma humana, que poderia agradar os alunos da psicanálise. Não apenas isso, muito mais próximo de uma estética de Nelson Rodrigues.
Numa certa ocasião, uma mulher discreta e casada com um médico recebe inesperadamente a visita de alguém desconhecido. Acompanhada de uma menina de em torno de seis ou sete anos, a mãe revela uma verdade, que irá mudar os rumos da história. Para Gosho, em sua ótica, não são os homens que podem ditar as regras que conduzem os seus destinos. Existe algo que foge de sua vontade, que se apresenta nos momentos mais inesperados.
A revelação é de que aquela criança era a filha do próprio marido. Sem se desesperar, sem sua aparente calma, em cujo coração explode uma banana de dinamite, nada faz senão aceitar as condições. Recolhe a criança como fosse sua, ao mesmo tempo que se despede do marido, sem nenhuma palavra a mais. Manter-se em silêncio, pode ser uma maneira de se vingar. Saiko é enigmática, carregada de emoções, sem que isso seja mostrada ao público. Pelo contrário, o silêncio é um de seus talentos.
Mas algo acontece quando conhece o marido de sua prima Midori, o senhor Misugi. Este é envolvente, educado, suas palavras seduzem até mesmo a Saiko. Os casamentos eram arranjados num sistema de apresentação, conhecidos por miai. Todos casavam por miai, quando as famílias concordavam em seus interesses de classe social. As aproximações que envolviam a sedução e o amor, em sua informalidade, eram justamente os que ocultavam da sociedade. Trata-se do amor ilícito, com todos os seus tabus e perigos, que haveria de acontecer às ocultas.
Num momento em que a influência da cultura ocidental estava presente, o amor a moda ocidental poderia ser um inconveniente devido ao seu excesso de liberalismo. De um lado, a convenção das tradições de uma cultura coletiva, de uma ética confuciana, de outro, um liberalismo que pouco tinha a ver com aqueles costumes. O indivíduo colocado em cheque, suas paixões iriam em sentido inverso ao que se esperava do bom senso. Quando, um dia, aquela situação se torna pública, vem a vergonha. Enquanto o amor é uma convenção decidida apenas pelas partes envolvidas, caso seja inapropriado, ao ser conhecido por outros, a situação se torno insustentável e o fim trágico. Assim acontece no cinema de Gosho. Se por lado o Japão procura se modernizar, atendendo as regras do capitalismo, do conforto material, simplesmente negar os alicerces de uma tradição anteriormente consolidada, será desastroso.
Falar em casamentos por apresentação, nos parece estranho, pois nada disso faz parte da história ocidental. Achar que somente este modelo pode ser válido, no cinema japonês outros valores são apresentados. Isso não quer dizer que novas perspectivas possam ser experimentadas no plano da ficção cinematográfica, quando o personagem Misugi, de maneira incomum diz: “sou um admirador do belo”. Naquele momento, o belo seria também o amor idealizado por Saiko, sem se preocupar com a opinião dos outros, pouco nipônico por parte dele.
O cinema é provocação ao infringir leis que mantém a normalidade, entretanto, no caso da arte, quebrar a normalidade possibilita abrir caminhos. Como heroína, Saiko foi capaz de amar o homem que não lhe pertencia. Ainda assim, foi capaz de morrer por este amor. De um lado a aparência da ordem, de outro a desordem dos sentimentos humanos que nunca cessam de expressar-se. Gosho avança por este caminho caudaloso da criação.
Neste filme podemos apreciar o trabalho de Okada Mariko e Sada Keiji em sua desenvoltura artística.

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