CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O trauma da boneca russa

Vi a tal boneca russa em vários locais, como fosse um enfeite, talvez um adorno, em lojas de chineses no Bairro da Liberdade, em São Paulo. Não apenas lá, também no consultório de meu médico judeu russo, em Higienópolis, e numa feira de natal no bazar da Igreja Ortodoxa Russa de São Nicolau, na rua Tamandaré. Intrigante. Fiquei pensando, o que seria aquilo: dentro dela havia uma outra, menor, dentro desta menor uma outra ainda, a terceira; dentro da terceira uma quarta, e por incrível que pareça, dentro da quarta uma quinta, a menor de todas. Os russos chamam-na de matrioska.
Respeitando-se o significado conforme a cultura eslava, num sentido universal de livre associação, o que a boneca russa tinha a ver com as minhas reflexões. Era de que dentro de nós tínhamos várias camadas de eus, que mudavam de acordo com a época. A boneca também tinha estes vários eus, aquela pequenininha, um bebê, que ia sendo substituída por uma outra, e assim por diante. Acontece que a boneca maior ao substituir a menor, não a eliminava, mas simplesmente a mantinha dentro de si. Aparentemente era uma outra boneca, maior que a anterior.
Com o tempo, cada vez mais a boneca se tornava grande, poderosa, até chegar um ponto que não necessitava mais crescer. Era uma boneca independente e adulta, capaz de tomar as próprias decisões e dirigir a própria vida. Podemos colocar a boneca em tamanho grande, com todas as outras menores, cada uma dentro da outra. Quem olhar a boneca posta na estante como adorno achará que é apenas uma boneca comum.
No campo das representações, a boneca russa pode estar ligada – esta é uma ideia minha – às manifestações comportamentais do ser humano na construção histórica. Todo final de ano somos como a boneca russa: sobre a camada velha colocamos a roupagem nova. Mas a velha estará presente, com uma maquilagem que possa disfarçar aquilo que pretende ocultar. Nada mudou realmente. Isso se aplica a todos os momentos vividos, em que se busca o novo, sem abandonar o velho. A boneca russa existe como uma unidade se existir dentro de si as outras, mantendo-se valores e vícios do passado. Desta forma, várias camadas de comportamentos coexistem entre si, sem mudanças.
Em tempos de tormenta como os vividos atualmente, de grande confusão, discursos morais, demonização do executivo e do legislativo, como fossem os vilões únicos de um mundo polarizado, notícias falsas veiculadas na rede social, jornalismo tendencioso e equivocado, uma cultura em que aponta o outro como o mal surge de forma violenta em propagar o ódio. Pode ser que este ódio tenha origem em tempos remotos de nossa constituição social e econômica.
Seria este originário da boneca menor, que sobressaiu a da anterior e faz questão de ocultar. A cada boneca, da menor para a maior, deixou dentro de si algo pernicioso, como a corrupção de si e a do outro, que explode em momentos de tensão, como fosse uma espécie de surto.
Combater o mal pela superfície é cuidar apenas da boneca maior, que se apresenta aos nossos olhos. Quando se alardeia a existência deste mal, todos se sentem afrontados, apontando o dedo para o outro, o único responsável pela corrupção. A corrupção é uma falha na alma humana, uma espécie de doença. Nada pode ser pior do que isso, que é combatido coletivamente e alimentado da mesma forma. Mas é sempre do outro. Ou podemos dizer, a pequena corrupção é menos perniciosa do que a grande, e quanto maior for, vai ganhando em sua proporção o peso da indignação.
Entretanto, corrupção é sempre corrupção, independente do seu tamanho. Irregular é assinar o nome do colega na lista de presença na faculdade. É a corrupção da boneca menor. Vai aumentando em grau e proporção e justificados em sua ação. Compra-se dvds piratas na rua Galvão Bueno, o que implica num ato de corrupção da alma. Quando se sonega imposto é também corrupção. Algumas empresas deixam de pagar a contribuição de aposentadoria de seus funcionários. Isso se aplica a uma boneca maior ainda e assim sucessivamente. Quanto maior é o poder do agente corrupto, maior é a corrupção. Mas nenhum corrupto existo sem o corruptor.
Enfim, numa dessas visitas ao dentista, uma ladainha de xingamentos fora dirigida aos nossos governantes, principalmente alguns, os mais visados, e outros poupados em sua parcialidade. Somente um falava, o próprio dentista, pois o outro com a boca aberta, nada poderia dizer. Fim da consulta e do sofrimento, as últimas palavras foram: “vai pagar com nota ou sem?”. Sempre os corruptos são os outros. Até que ponto estou também mergulhado neste mundo das bonecas russas? Reconhecer é uma questão de inteligência. Curar a própria corrupção é ato de humildade. Se isso não acontecer, continuaremos proclamando mudanças, sem que nada mude realmente. E nada vai acontecer.

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