CANTO DO BACURI > Francisco Handa: O cinema noir americano

Uma das produções mais significativas da indústria cinematográfica dos Estados Unidos são os filmes preto e branco, cujo estilo passou a ser conhecido por noir. O termo francês significa escuro, negro, preto. Prefiro o termo escuro, que mescla alguma claridade, formando sombras, tão necessárias para produzir imagens que se revelam e se ocultam. Trata-se da década de 50, quase sempre filme policiais, de histórias simples, narrativa constante e uma estética que agrada aos apreciadores do gênero.
Época em que o modelo americano de vida marca presença no mundo todo, desde o final da 2ª. Guerra Mundial, cujo vencedor foi justamente os Estados Unidos. Vencedor significa, os americanos passaram a dominar o mercado internacional no fornecimento de mercadorias, como a Coca Cola, a General Eletric, a Ford, também o cinema em produção em grande escala, uma mercadoria a ser consumida. De fato, o mundo se encontrava dividido e endurecido com a Guerra Fria, um embate pela hegemonia política e econômica com a antiga União Soviética.
Utilizando-se das fitas em preto e branco, a fotografia passou a significar algo profundo na alma humana, cuja narrativa poderia enriquecer-se pelo o que os olhos poderiam perceber através de jogos de luz. Num quarto escuro, os rostos são revelados numa luz direta, enquanto todo o resto deve ficar no escuro. Por se tratar de policial, muito do submundo é mostrado com salafrários, ladrões e chefes mafiosos com os paletós impecáveis, usando chapéu e fumando. Não somente os malfeitores fumam, bem como os policiais, produzindo altas fumaças de nicotina que inundam o ambiente. Servia de propaganda para as marcas consumidas de cigarro. Vender era preciso, consumir também. As vestes eram impecáveis, sem se amarrotar nunca, certinho no corpo, confeccionado por um alfaiate de renome. Poderia ser um alfaiate italiano ou irlandês.
Quanto às mulheres, sempre muito brancas, contrastando com a luz branca dos refletores, penteados da moda e perfumadas. O perfume poderia se sentir pela sua aparência, um rosto fresco, sem sinal de rugas ou suor. Isso revelava a luz. Eram mulheres dos fora da lei, belas, interessadas em levar uma vida de bem estar, à custa de seus protetores. Quase sempre do interior, moças de famílias pobres, sem muita educação, que sonhavam com a riqueza advinda do sonho americano. Todos os meios para isso eram possíveis, inclusive os desaprovados.
Poucas cenas eram realizadas de dia, quando o cidadão comum andava livremente pelas ruas, muitos deles trabalhadores assalariados, que se contentavam em economizar parte de seus salários. Mas quanto aos foras da lei, era na noite em que agiam. As sombras pairavam em todos os lugares, quando a câmera mostrava os passos sorrateiros arrastando-se num corredor escuro. Por onde se vá uma sombra haverá de estar à espreita, quem sabe protegendo, quem sabe perseguindo. O mundo criado pelo cinema noir é único, em que confundem os atores, que são policiais, mas também bandidos. Deixa de existir uma divisão clara entre os bons e os maus, pois todos têm um pouco de cada lado.
Tudo vai mudar com o advento do cinemascope, carregado de cores, em que nenhum um só local encontra ausente de colorido. Tudo está pronto e devidamente exposto aos olhares. Esta é uma outra história.
Atualmente se vive uma fase de exageros de imagens, através dos holofotes das propagandas, das vitrines das lojas, do colorido do carnaval, as lâmpadas brancas, em substituição às leitosas. Tudo parece exposto. Todas as notícias estão expostas exagerando no comunicado, distorcidas e tendenciosamente prontas. Diante disso, os olhos não se fecham, nem os ouvidos se tampam. Isso gera confusão. Mais do que nunca, a exposição se tornou um modo de vida da vaidade e ilusão. Talvez, muito provavelmente, fechar os olhos para se ver, tapar os ouvidos para ouvir.
Como era encantador os tempos do cinema noir. A ilusão podia ser vista como ilusão, pois o cinema era veículo de produzir sonhos, momentos de felicidade, beleza, em que o impossível se realizava por instantes. O instante exato do filme acabar.
Como no cinema noir as cenas acontecem no escuro, existe o mistério das coisas não reveladas. A surpresa está presente em cada canto escuro, que se clareia, conforme a narrativa do diretor. Neste contraste do claro e escuro, aquilo que se revela é claro e evidente. O rosto das mulheres acende como uma lua cheia numa noite sem estrelas. As sombras mais sugerem do que revelam, mas quando revelam não existe a certeza. O cinema apenas diz, sem querer provar nada, mostra uma realidade presente nas almas mais profundas do ser humano.
No mundo de hoje, esta alma se mantém ofuscada demais.

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