CANTO DO BACURI > Francisco Handa: Alma do poeta

Alma do poeta

Maior que o mundo, imensamente
A alma que me anima mal cabe nestes
Olhos envelhecidos de uma experiência vivida
Ondas invadindo a areia molhada
A transbordar em suor gotas de sal.

Maior que o mundo, imensamente
Que somente o silêncio é capaz
De dizer aquilo que não pode ser dito.
As palavras em sua insuficiência dizem algo
Que não se dá conta do que a alma sente
Cuja angústia é justa ao perceber por instantes
Que a morte também é pequena.

Maior que o mundo, imensamente
Nada pode ser tão suave como os passos
Da freira que passa calçando sapatos de nuvens
A perder-se no horizonte em que sopram ventos alísios.
Por isso bebo das águas em que beberam
Em sua sede
Desespero das almas grandes
Renúncia de enriquecimento falho
Pelas coisas que continuam sendo coisas
Nada além delas mesmas.
Se tal inquietação não me consumisse
Seria pequeno
Uma alma pequena a desaparecer
Numa explosão do instante presente.

As naus a singrar o Equador

Outrora atravessaram os mares
Deixando na terra distante fumaças de sonhos
Que ligeiramente tornaram-se cinzas
Sem importância.

Assim cruzaram a linha intermediária
Ouvindo o grasnar das gaivotas
Lanças e espadas ficaram para trás
Também as danças na aldeia pequena
Além das montanhas
O Buda de bronze carcomido pelo sal
Num templo que viajou no espaço
De um soluço qualquer
Despedida que ficou ao rebentar a fita de papel
Ao zarpar o vapor.

As lágrimas rolaram pelas faces
Das velhas de fundas rugas
Dos jovens levando nas costas
Uma trouxa vermelha de esperança
As mãos que antes teciam a seda
Tingiam de azul nas correntezas
Seguravam agora as hastes das bandeiras
Fincando na terra a semente
Da pátria deixada distante.
Um céu inteiro para olhar
O Cruzeiro do Sul apontando o olhar
Nas poeiras da terra brasileira.

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