CANTO DO BACURI > Francisco Handa: A prisão de Takakura Ken

Nunca houve um ator tão popular quanto Takakura Ken, falecido em 2014. Mais de duzentos filmes tiveram este como personagem principal, quase sempre num tipo que foi consagrado em sua pele, o de yakuza. A sua fama ultrapassou as fronteiras. Em 1974, estreou em Hollywood, ao lado de Robert Mitchun, em The Yakuza (lançado aqui como Operação Yakuza). Novamente fez parceria com os americanos em Black Rain (Chuva Negra), de 1989, um filme de Ridley Scott’s, com Michael Douglas e Andy Garcia. Seu último filme no estrangeiro foi Riding Alone thousands of miles, de Zhang Yimou, de 2005, tendo por cenários as planícies da China.
Neste artigo, o filme a ser apreciado é Abashiri Bangaichi, de 1964, que podemos traduzi-lo por ”Os muros de Abashiri”. A produção é da Tohei, com direção de Teruo Ishi e trilha sonora de Masao Yagi. Filme em preto e banco, cujo contraste é latente devido a constante neve branca e a roupa escura. Numa época em que o colorido era comum, alguns filmes eram mantidos na forma antiga. Era uma questão de opção. Uma vez que se usava o preto e branco, havia algum motivo para isso, possivelmente ajudava na narrativa e na estética. O branco e o preto não é uma forma usual em nossos olhos, mas algo diferente cuja luz produz sombras e contrastes.
Ser conduzido como presidiário a Abashiri é para os fora da lei, sem muita capacidade de recuperação, que deve ficar longe da civilização. Abashiri localiza-se nas fronteiras norte, no ponto mais distante de Hokkaido, conhecido também pela denominação russa Okhotsk, que se desponta em direção ao Mar Okhotsk. Muito frio, com a temperatura chegando aos 15 negativos.
O teria feito Shin’ichi Tachibana para ser levado para lá. Seu passado não é dos mais felizes, cujo trauma remonta a infância numa família desestruturada. Um dia é expulso pelo padrastro e passa pelas agruras da vida. Não haveria condições favoráveis de ajuste social, senão tomar as vias tortuosas do submundo. Ingressa num clã de malfeitores. Seu único crime foi ter aceitado uma missão. Executar o chefe de um bando concorrente, nada pessoal, apenas obediência a um código entre os malfeitores. Antes, ele se apresenta, aquela maneira clássica, que fez sucesso no cinema: “Sou da família Ryujin, meu nome é Shin’ichi Tachibana, sou um iniciante”. O golpe de espada é certeiro, ainda que muitos homens guardem o chefe do bando.
Não temos motivos para julgar Shin’ichi, nem acusá-lo pelo crime, nem julgá-lo, pois isso cabe aos burocratas que usam toga, cuja função é justamente esse. Ainda que fora da lei, estes possuem valores como lealdade aos companheiros, respeito aos velhos e um amor incontido pela mãe. Assim age Shin’ichi. O ponto central do filme, além de mostrar a sociedade prisional, uma reprodução da sociedade maior, é a fuga de Shin”ichi pelas geleiras de Hokkaido. O mais interessante é que ele se encontra algemado a um outro. Fora da prisão, ainda se encontra preso ao outro, que não pode se ver livre. Nunca o homem poderá ser totalmente livre, pois as circunstâncias são diversas e que não atendem às necessidades do homem.
Ainda que o outro seja um estorvo, aceitar a situação posta, pode ser um caminho para a salvação. Para onde um vai, o outro terá que acompanhar, independente de sua escolha. Na verdade, não existe escolha por algum caminho, pois caminho algum existe na neve, que afunda a cada passo. Não importa que caminho tomar. Esta é a melhor das metáforas quando se busca a liberdade. Não depende apenas da vontade, mas em enfrentar o mundo da maneira como ela se apresenta, além de uma moral, além de um senso de justiça. Mas os homens nestas situações de desespero possuem um instinto de sobrevivência e uma criatividade além deste instinto. Podem se abraçar para espantar o frio, esfregando um as costas do outro afim de esquentar.
A prisão de Abashiri é muito mais do que os muros que cercam o prédio. De alguma forma, todos estamos nesta prisão, criado pela condição humana de egoísmo e compaixão. Ambos os sentimentos coexistem sem maiores problemas. Mas o que acontece quando Ken’ichi se livra das correntes e o companheiro se encontra ferido, capaz de morrer se deixado para trás devido o frio. O que faria você nesta situação. Procuraria salvar a própria vida, deixando o outro. Ficar poderia matar dos dois. Este é o desfecho final.
Nem todo o frio de Abashiri é capaz de congelar um fogo interno, que se extingue somente quando a morte chega. Até então, todas as possibilidades estão abertas. Também é um ato de coragem. Os corajosos têm o fogo no coração, o que não acontece com os covardes.

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